Elis Regina e Upa Neguinho!

Posted on 18 de janeiro de 2012 by José Roberto Sarsano


Elis Regina Carvalho Costa, a voz, o mito. Estrela de brilho único, em 19/01/1982 ela passou para outra dimensão mas trinta anos depois continua entre nós como insuperável referência, eternizada pela sua obra e fãs. Em janeiro de 1968, cantando Upa Neguinho, de Edú Lôbo, Elis Regina conquistou uma das platéias mais exigentes do mundo no Palácio dos Festivais em Cannes, e se tornou em março do mesmo ano a primeira cantora brasileira a pisar no templo da música mundial, o prestigiado Teatro Olympia de Paris, abrindo as portas de sua bem sucedida carreira na Europa. A canção Upa Neguinho era sua marca registrada! Junto com ela, sustentando arranjo musical, harmonia e ritmo, estavam José Roberto Sarsano, Amilson Godoy e Jurandyr Meirelles, os músicos do Bossa Jazz Trio.





O admirável é que Elis, cantando em português uma música bem brasileira ligada a história dos escravos no Brasil, foi aplaudida em pé por uma platéia de mais de 2.500 críticos de música de todo o mundo que não entendiam nada de português, sendo a única chamada a bisar, num evento onde estavam os artístas que mais tinham vendido discos no ano anterior em seus respectivos países.


Escolha de repertório era um dos pontos fortes de Elis. Para benefício da história, como parte das justas homenagens que Elis recebe neste ano de 2012, achei interessante mostrar o importante significado da canção que é um marco na carreira de Elis e na história da MPB.


“Upa, neguinho na estrada/ upa, pra lá e pra cá/ virge, que coisa mais linda!/  upa, neguinho começando a andá/ começando a andá, começando a andá / e já começa a apanhá/ cresce, neguinho e me abraça/ cresce e me ensina a cantá/ eu vim de tanta desgraça/ mas muito te posso ensiná/ capoeira, posso ensiná/ ziquizira, posso tirá
valentia, posso emprestá/ mas liberdade só posso esperá/ patá tá tri/ tri tri tri/ trá trá trá”


Vocês devem ter notado que quase todos os versos da letra fazem rima em “á”: cá, andá, apanhá, cantá e por aí vai. A composição não pretende ser escrita na linguagem culta, mas numa espécie de dialeto que é a língua dos africanos trazidos para o Brasil e de seus descendentes. É a língua dos escravos, a mesma que nos deixou o delicioso sinhô no lugar de senhor, por exemplo. É esse idioma que vamos encontrar na literatura que tematizou o negro e as perversidades a que foi submetido pelo branco dominador.


Assim, no famoso poema “Essa negra Fulô” (1928) e nos “Poemas Negros” (1947), ambos de Jorge de Lima, vamos encontrar uma dicção, uma fisionomia parecida com a que vemos em “Upa,neguinho”, que faz parte da peça Arena conta Zumbi.


A canção é aparentemente jocosa, leve, cheia de graça, como é essa língua meio portuguesa, meio africana. A interjeição “upa”, tantas vezes repetida ao longo da música, dá ainda um ar brincalhão e mais graciosidade a essa fala de alguém que vê uma criança negra ensaiando os primeiros passos e as primeiras decepções. Repare que é de longa data o trabalho infantil neste país, onde o crioulinho sai do ventre da mãe direto para o mundo do trabalho forçado.


Mas o eu da composição, que, como vamos saber mais ao fim, é um negro adulto, que veio de tanta desgraça, de alguma maneira se alegra e se reconforta na visão do neguinho. Só o pequeno escravo pode fazer com que seu sofrimento tão grande desapareça por um momento. Sabe-se que, quando se é intensamente explorado e humilhado, a auto-estima é a primeira coisa que se perde. O explorado, de tanto ser explorado, acaba pensando como o explorador, ou seja, acaba achando que ele próprio não vale grande coisa e que merece o desprezo dos outros. O explorador faz que o explorado, de tanto ser explorado, pense que ele, explorado, só merece ser explorado. A coisa é redundante mesmo. É um círculo vicioso.


Mas, nessa canção, o escravo adulto adquire um grãozinho de auto-estima ao ver o negrinho. Ele se dá conta de que pode ensinar algo a ele, que possui um saber que vale a pena ser transmitido: capoeira, ziquizira, valentia… O escravo adulto conhece formas de luta e brincadeira (a capoeira), conhece artes curandeiras (ele pode tirá a ziquizira) e tem na valentia sua forma de dignidade. Mas essa dignidade é ao mesmo tempo limitada. Ele não tem o principal: a liberdade, que é o que faz um homem ser homem. Esse escravo tão humano e sensível, sabedor de tantas artes, é tratado de forma infra-humana: liberdade só posso esperá…


Sem liberdade, não há auto-estima que se sustente. A auto-estima do negro adulto é capenga como os passos do negrinho, cujo desenvolvimento, muito paradoxalmente, se acompanha de mutilação: ele começa a andar, a se desenvolver, e já começa a apanhar. Mas ainda assim existe graça, poesia, em seus passos desajeitados, de criança que mal consegue se equilibrar ainda: essa é a graça da música, que trata no entanto de assunto tão grave, tão espinhoso como a escravidão, a opressão social. Afinal, era preciso sobreviver de alguma maneira, era preciso fechar um pouco os olhos e cantar em meio a tanta desgraça.


A imagem que acompanha este artigo é da capa do disco lançado na França em 1968 com o registro da apresentação ao vivo de Elis acompanhada pelo Bossa Jazz Trio. Salve Elis, e obrigado por tudo.


Sobre os autores


Gianfrancesco Guarnieri


O ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri nasce a 8 de agosto de 1934, em Milão, na Itália. Sua família muda-se para o Rio de Janeiro em 1936, onde Guarnieri faz seus estudos até 1953, quando decide ir para São Paulo. Em 1955, funda, com Oduvaldo Viana Filho, o Teatro Paulista do Estudante. Estréia como dramaturgo em 1958, com a peça Eles não usam black-tie. A montagem tem grande êxito e ganha vários prêmios (em 1981, a adaptação para o cinema ganharia o Leão de Ouro no Festival de Veneza). Entre suas principais peças, estão Arena conta Zumbi (1965), na qual teve como parceiros Augusto Boal e Edu Lobo, Castro Alves pede passagem (1968), Um grito parado no ar (1973). Por esta última obteve o “Prêmio Governador do Estado” como melhor autor brasileiro. Trabalhou como ator e diretor em cinema e televisão.


Edu Lobo


O compositor Eduardo de Góis Lobo nasce a 29 de agosto de 1943, na cidade do Rio de Janeiro. Seu primeiro instrumento é o acordeom, que estuda dos oito aos 14 anos. Aos 16 anos começa a estudar violão. Mais tarde cursa até o terceiro ano de Direito na PUC. Em 1962, lança seu primeiro disco, um compacto duplo. Participa de vários festivais de música popular brasileira, vencendo, em 1965, com a música Arrastão (composta em parceria com Vinícius de Morais) e, em 1967, com a música Ponteio(composta em parceria com Capinam). Realiza diversos trabalhos com Ruy Guerra, Gianfracesco Guarnieri, Vinícius de Morais, Capinam, Chico Buarque e Tom Jobim. Faz trilha sonora para cinema, teatro e TV e lança vários álbuns. Em 1994 recebe o Prêmio Shell pelo conjunto da obra.

Assista no vídeo entrevista de José Roberto Sarsano a Ione Borges da TV Gazeta sobre a história do sucesso de Elis Regina com Upa Neguinho no II Festival MIDEN do Disco em Cannes em 1968.